Fernando E. Aznar
I M A G E R
ensaio crítico
a Paisagem depois da paisagem
As séries Verbo, Revelações, Ausências e Completudes
ㅤO horizonte aparece cedo demais na história da pintura. Quando a perspectiva foi domesticada no Renascimento, aquela linha distante passou a funcionar como uma máquina discreta de organização. Tudo encontrava seu lugar. O espaço obedecia. O mundo cabia dentro do quadro.
ㅤHoje, o horizonte continua lá. Só que já não organiza nada. Não promete chegada, não aponta direção, muito menos sentido. Permanece imóvel, quase indiferente. Quem lhe dará significante? O que provocará significado?
ㅤA paisagem fraturada transbordou-se. Sob a pressão da hipervisibilidade, o território perdeu a inocência de cenário contemplativo. E dos escombros de códigos binários corrompidos, a fricção da memória arqueologiza o presente. Resta abrir mão da descrição material, renunciar ao espetáculo, recusar a paisagem como inventário de acidentes geográficos. A subfotografia de Fernando E. Aznar, estratigráfica, opera na espessura do que resta, escava latências e atrita os últimos suspiros da imagem contemporânea.
ㅤEm Revelações, a natureza física cede lugar ao trauma do arquivo. Aznar abandona o pretenso espelhamento do mundo para expor as vísceras da imagem digital, investigando aquilo que ele chama de “firmware” do registro. O arquivo binário esconde um mapa de pixels que o artista raspa por camadas – na técnica de peeling da subsérie ‘Invisíveis’ – ou corrompe, forçando o erro mecânico. Na subsérie ‘Ante-Céus’ são inteiramente forjados por algoritmos a partir de apropriações de arquivos de agências espaciais, extrapolando dados de fora para dentro. A paisagem assume sua própria falsificação. Em ‘Glitschig’, o acaso dita o golpe: um disco rígido corrompido vomita o código-fonte retorcido. O erro de leitura estraçalha a ilusão fotográfica, largando no ar o chiado estático e colorido da engrenagem matemática.
ㅤSe o digital asfixia em cálculos, Verbo afunda as mãos na cal urbana. A série mapeia a caligrafia crua e anônima nos muros. Denúncias e raivas gravadas por quem foi expulso do latifúndio virtual e não domina os “maus modos” eletrônicos. O artista captura o grito de quem “verborreagiu” com tinta no concreto. É a palavra secando em “pó de lágrimas”, letras exaustas exigindo manifesto civil de quem não aceita ser apenas réu no mundo. A câmera não poetiza o desgaste; age como desfibrilador. Retém o sinal elétrico do sujeito antes que o Estado venha e arranque a placa, antes que alguém repinte a parede por cima do desespero.
ㅤO esvaziamento radical consolida-se em Ausências, mas como atropelo, não como técnica premeditada. Aznar tropeçou nesta série autocurando o próprio acervo anos mais tarde, resgatando imagens falhas paridas no caos entre pautas comerciais. Percebeu o ruído no arquivo morto, e ouvindo o esvaziamento tático. Gentes reduzidas a fantasmas, manchas esmagadas por flares. Impressas diretamente sobre a porosidade quente da madeira em dípticos, essas figuras não têm nome nem biografia, são cacos holográficos. Exigem do espectador um esforço gástrico. Como o artista cobra, quem olha precisa “amarrar suas tripas” nas imagens, refotografar os retratos com suas artérias, desfazendo a métrica da moldura para tragar a falta de ar imposta pelo ensaio.
ㅤA trégua insinuada pelo título Completudes não é desfecho provisório, é um truque. Um falso repouso num coma para medicar-se. Fixada na aspereza fria da pastilha de porcelana esmaltada, a série enterra o conceito de harmonia, na tensão de uma corda esticada ao limite antes de arrebentar. O encontro sugerido não é paisagístico, mas psicanalítico. Um “choque tectônico” entre inconscientes, que desaba sobre a ideia romântica da metade que cura a outra. Não há pacificação dialética entre o Eu e o Outro. Aznar enquadra o afeto como uma força desastrada, seca, na estranheza de um “conforto unfamiliar”. Um empuxo onde esses “biferentes iguais” colidem sem controle projetivo. O equilíbrio prometido é apenas o tranco momentâneo, um instante precário de dois corpos travados na mesma órbita magnética sem controle.
ㅤA fotografia não funciona mais como janela, impõe o peso insuportável da duração imensurável. Ela é o estalo seco no momento exato em que a ferrugem paralisa a catraca da máquina. A paisagem avança para fora do quadro, mas o horizonte continua lá, gelado e intransponível, rachando a íris do artista ao meio na vertical. E uma fina geada de vidro em pó continua caindo e nos transpassando pela arte. Ardendo como paixão.